Conto O Menino (Análise Psicanalítica).

                             

Olá pessoal, eu trouxe hoje uma análise feita por mim, com algumas teorias psicanalíticas que estudei e fiz sobre a mesma, neste conto. Como eu mesma disse, psicologia faz parte da minha vida e vim compartilhar mais sobre a mesma aqui no blog por meio desta análise. Espero que gostem e boa leitura. 🙂

O conto “O menino” escrito por Lygia Fagundes Telles, conta a história de um passeio com a mãe e seu filho, aonde os dois vão ao cinema em decorrer da preparação da mãe e a ida ao cinema é narrada às formas em que o filho visualiza a sua mãe em seus pensamentos, a alegria de andar com a mulher que ele tanto admira e ama. Na história o elenco e constituído pelo pai que esta sempre fora trabalhando a mãe que e a mulher bela e exuberante a empregada e o menino o qual e narrado as suas expressões diante do passeio com a mãe linda bela com a qual ele vai sair.

  De inicio é demonstrado alegria do garoto de sair com a mãe, parece que é algo que ele tem desejo de poder estar com a mãe e apenas os dois sozinhos, onde há a vontade de ser homem, mas ao mesmo tempo, infantil ao querer ser abraçado pela mãe como uma criança de colo, despertando assim, uma contradição por parte do menino.

“Sentou-se num tamborete, fincou os cotovelos nos joelhos, apoiou o queixo nas mãos e ficou olhando para a mãe […] Deixou a escova, apanhou um frasco de perfume, molhou as pontas dos dedos, passou-os nos lóbulos das orelhas, no vértice do decote e em seguida umedeceu um lencinho de rendas. Através do espelho olhou para o menino. Ele sorriu também, era linda, linda, linda! Em todo o bairro não havia uma moça tão linda assim”. (O Menino, 1949, p. 109).

  Na Psicanálise, há o complexo de Édipo, onde é uma fase universal do desenvolvimento a qual de acordo com   Freud, todos os neuróticos passam de forma inconsciente. Sendo vivido o seu apogeu entre os três e cinco anos, durante a fase fálica e tendo o declínio no período de latência. É fundamental na formação da identidade sexual do homem e dos seres determinados nos três tipos de personalidade, como neuróticos.

  No trecho citado, é bem visível a presença do investimento no amor objetal por parte do menino direcionado a mãe e o investimento da mãe ao seu filho. No caso da criança, ele deseja ser o único objeto de desejo de sua mãe e de seu pai, ele almeja ser o desejo da sua mãe. O complexo de Édipo é uma questão, que dependendo do modo que a pessoa passa por essa etapa, determina a sua psicopatologia, sua personalidade.

“Na rua, ele andava pisando forte, o queixo erguido, os olhos acesos. Tão bom sair de mãos dadas com a mãe. Melhor ainda quando o pai não ia junto porque assim ficava sendo o cavalheiro dela. Quando crescesse haveria de se casar com uma moça igual. Anita não servia que Anita era sardenta. Nem Maria Inês com aqueles dentes saltados. Tinha que ser igualzinha à mãe”. (O Menino, 1949).

  Provavelmente, o menino, estava passando pelo processo do complexo de Édipo, onde sua mãe é o seu único desejo, até mesmo o levando a pensar em buscar alguém no futuro que seja igual a sua mãe. Pois, a criança edipiana sexualiza os pais, introduzindo-os em suas fantasias, sexualidade esta que é percebida ao modo de obtenção de prazer, por parte da criança. A criança deseja ser o único desejo da mãe ou do pai.

“Ela comprou os ingressos e em seguida, como se tivesse perdido toda pressa, ficou tranqüilamente encostada a uma coluna, lendo o programa. O menino deu-lhe um puxão na saia.
─ Mãe, mas o que é que você está fazendo?! A sessão já começou, já entrou todo mundo, Pô! ─ Sei que já começou, mas não vamos entrar agora, ouviu? Não vamos entrar agora, espera.
O menino enfiou as mãos nos bolsos e enterrou o queixo no peito. Lançou à mãe um olhar sombrio. Por que é que não entravam logo? Tinham corrido feito dois loucos e agora aquela calma, espera. Espera o que, pô?!…” (O Menino, 1949).

Durante esta fase, como citada e interpretada no conto, a criança tende a querer ser sempre o centro das atenções da mãe, o seu “Falo” e sempre quer suprir as vontades advindas do seu desejo, então, é bem comum, que a criança tome uma posição de chamar a atenção, de realizar exigências e até mesmo pedido aos pais. Porém de um ponto de vista clínico, tem um limite à ser dado, o Édipo dá pequenas interdições para que o indivíduo tenha uma diminuição da fantasia e haja a socialização do individuo. É uma interdição e restrição ao desejo irrestrito desta criança, sendo assim, a castração, ocorrendo de forma narcísica, podendo ser realizada tanto pelo pai ou pela mãe.

“O menino pôs-se na beirada da poltrona. Esticou o pescoço, olhou para a direita, para a esquerda, remexeu-se: ─ Essa bruta cabeçona ai na frente! ─ Quieto, já disse.
─ Mas é que não estou enxergando direito, mãe! Troca comigo que não estou enxergando. Ela apertou-lhe o braço. Esse gesto ele conhecia bem e significava apenas: Não insista!”. (O Menino, 1949).

Em uma família, há a triangulação edípica, onde antes somente havia a presença de uma mãe e a criança, e é afetado. A mãe e a criança já têm uma relação interna entre si, porém com a apresentação do pai por intermédio dessa mãe, acaba por se tornar uma triangulação. Pois, cabe a mãe a autorização do pai, por desejar outras coisas além desta criança, como por exemplo, o pai, acaba por colocá-lo em sua prioridade de desejo, deixando que o outro entre na relação.  Na história, o menino já tinha o pai, que estava nesta triangulação, onde provavelmente, tomou como referência sobre o aspecto que o mesmo, por ser homem, não deveria usar perfume. Acaba então, por se abalar ao ver e perceber que além dele, a mãe tinha outro objeto de desejo, um homem o qual não era o seu pai.

“Então viu: a mãe pequena e branca, muito branca, deslizou pelo braço da poltrona e pousou devagarzinho nos joelhos do homem que acabara de chegar.
O menino continuou olhando, imóvel. Pasmado. Por que a mãe fazia aquilo? Por que a mãe fazia aquilo?!… Ficou olhando sem nenhum pensamento, sem nenhum gesto. Foi então que as mãos grandes e morenas do homem tomaram avidamente a mão pequena e branca. Apertaram-na com tanta força que pareciam esmagá-la.” (O Menino, 1949).

  A partir desta atitude inesperada da mãe, o menino percebe que sua vontade de ser o único desejo de sua mãe não é atendida. Ela também tem outros desejos, e percebendo também logo mais, que a mãe de seu colega, é até mesmo melhor que a sua mãe, pois percebe também o erro de sua mãe. E ao decidir confrontar o homem, retrata um típico acontecimento da triangulação edipiana, porém, voltada ao homem e não ao seu pai, onde com hostilidade, o menino tenta confrontar esse homem, que toma tanta atenção de sua mãe, seu até então seu objeto de desejo.

“Então o homem levantou-se embuçado na mesma escuridão em que chegara. O menino retesou-se, os maxilares contraídos, tremulo. Fechou os punhos. Eu pulo no pescoço dele, eu esgano ele! […] Sentiu a perna musculosa do homem roçar no seu joelho, esgueirando-se rápida. Aquele contato foi como ponta de um alfinete num balão de ar. O menino foi-se descontraindo. Encolheu-se murcho no fundo da poltrona e pendeu a cabeça para o peito”. (O Menino, 1949).

Com o complexo, ocorrendo em plena fase fálica, os interesses das crianças, estão fortemente ligadas aos seus órgãos genitais, em sua manipulação frequente. Os adultos ao manifestar o seu descontentamento, fazem ameaças ao fato, dizendo sobre a perda do mesmo. No menino, ao ver que há a falta deste mesmo nas meninas e na mãe, torna imaginável a perca deste órgão. Gerando a angustia da castração, o homem temerá passar pelo processo que o outro passou. No momento de confronto ao pai, a criança teme perder o seu órgão e escolhe simplesmente deixar a mãe e passa a se basear no pai, ele se identifica com este pai e introjeta características do seu pai em si. Para assim, procurar outra “Mamãe”, sem ser a sua, sendo assim, uma mulher do ambiente externo a sua, sendo assim, uma mulher do ambiente externo a sua família.

   No conto, porém isto é percebido de outro modo, a criança ao perceber o tamanho daquele homem e a sua inferioridade em relação ao mesmo, deixa de confrontá-lo com o medo de perder o seu objeto de investimento na fase fálica. Deixando assim, de modo hostil, aquele homem ir embora e nada fazer. Voltando assim para casa com sua mãe, os papéis sofrem inversão. Os valores mudam. O menino não quer contato físico com a mãe, não quer mais andar de mãos dadas. Justifica “É que não sou mais criança” (p. 115). A mãe fala sem parar e o menino responde por monossílabos. Ele, que antes sentia orgulho da mãe, agora sente raiva. Chegando a invejar o amigo Júlio e a mãe que tem.

“Endureceu as pontas dos dedos, retesado, queria cravar as unhas naquela carne.
─ Ah, não quer mais andar de mãos dadas comigo?
Ele inclinara-se, demorando mais do que o necessário para dobrar a barra da calça rancheira. ─ É que não sou mais criança”. (O Menino, 1949).

Ao entrar em casa, o menino entra em desespero, acha que alguma coisa terrível vai acontecer, mas tudo está normal, como sempre. Ele não toma nenhuma atitude, não conta o que aconteceu, não denuncia o “adultério” da mãe.  Porém Identificando-se com o seu pai, sente a sua dor: ambos foram traídos. Tudo permanece aparentemente como antes, só quem sente a mudança e a dor que ela traz é o menino.

“O menino voltou para a escada os olhos cheios de lagrimas.
─ Que é isso? ─ estranhou o pai. ─ Parece até que você viu assombração. Que foi?
O menino encarou-o demoradamente. Aquele era o pai. O pai. Os cabelos grisalhos. Os óculos pesados. O rosto feio e bom.
─ Pai… ─ murmurou, aproximando-se. E repetiu num fio de voz: ─ Pai…
─ Mas meu filho, que aconteceu? Vamos, diga!
─ Nada. Nada. Fechou os olhos para prender as lágrimas. Envolveu o pai num apertado abraço”. (O Menino, 1949).

O menino percebe que ainda não está pronto para ser e agir como homem (o que fica evidente com a sensação de impotência que sentiu ao ter contato com o amante da mãe, no cinema). Depois do ocorrido, também irá mudar a relação do menino com o pai: se antes, durante a existência do complexo de Édipo, o pai era encarado como um adversário, como a figura que impedia a concretização do desejo do menino, agora passa a ser um companheiro. E Começará a haver a identificação do menino com a figura paterna, em busca da introjeção de características do pai em si, e junto com isso provavelmente virão os valores e regras do pai, gerando e constituindo os valores morais, constituindo a estrutura psíquica do superego.